“O artesanato é um resgate de memórias, emoções e de um saber que você aprende com o tio, com a mãe, com o irmão, com alguém que você gosta.” Vice-presidente da Aefea – Associação dos Expositores da Feira de Embu das Artes, Ana Rodrigues defende a produção cultural tradicional como pilar fundamental da história e da sustentação econômica da comunidade – mesmo diante da difícil concorrência imposta pela produção tecnológica dos dias de hoje. Em Embu das Artes, a Feira de Artesanato se confunde com a própria história do município. A emancipação da cidade aconteceu em 1959, época em que as artes plásticas estavam em plena ascensão no local, atraindo artistas de diferentes partes do Brasil. Em 1964, a realização do primeiro Salão de Artes Plásticas se tornou uma esteira para a criação oficial da Feira de Artes e Artesanato de Embu das Artes, em 1969. A Feira reúne artigos de decoração, vestuário, artes visuais, gastronomia, plantas, antiguidades, cerâmica e artesanatos de diversos tipos e locais do Brasil. Ela impulsiona a economia local, através do sustento dos expositores e do estímulo a outros setores, como o hoteleiro e o de bares e restaurantes. Em março de 2021, cinco anos atrás, a Alesp aprovou a Lei 17.333/2021, que declarou o evento Patrimônio Cultural Imaterial do Estado. A lei reconhece a tradição artística da cidade, consolidada com a “chegada de inúmeros artistas importantes ao município a partir de 1920”. Menos expositores Em entrevista à TV Alesp em fevereiro deste ano, Ana reconheceu que, devido ao envelhecimento dos artesãos e à falta de interesse dos mais novos, o número de expositores vem diminuindo. “Para participar de um evento como esse, quer queira quer não, tem uma despesa por final de semana. Você tem que se deslocar e se alimentar”, apontou Ana Rodrigues. Ana também destaca que o turismo em outras regiões do Brasil opera em uma lógica mais “informatizada”, com ampla divulgação na mídia. Para ela, a Feira de Embu precisa ser mais divulgada para os turistas que chegam na Grande SP e muitas vezes não conhecem o potencial do município na produção cultural. “As pessoas às vezes falam ‘nossa, eu nem sabia que existia isso’”, afirma. Outro ponto defendido por ela é a ampliação dos dias e horários de funcionamento “oficial” da Feira, se estendendo de quarta até domingo. Atualmente, ela funciona todos os dias, mas apenas nos finais de semana e feriados nacionais concentra grande quantidade de expositores. “Seria uma solução para deixar essas pessoas motivadas para que elas permaneçam e continuem sentindo vontade de produzir e de criar.” História A história de Embu começou a se cruzar com as artes – que hoje fazem parte até do nome da cidade – já no período colonial. Povos indígenas e jesuítas produziam e comercializavam santos de madeira e projetaram a Igreja Nossa Senhora do Rosário. Na década de 20, a então vila de M’Boy, pertencente à Itapecerica da Serra, recebeu o jovem artista Cássio da Rocha Matos. Ele comprou uma chácara na vila e começou a produzir peças autorais, que dialogam com aspectos do modernismo, do folclore e da religiosidade. A relação do escultor com a vila foi tão forte que ele passou a ser conhecido pelo nome Cássio M’Boy, ganhando projeção internacional. Dialogou com artistas proeminentes do modernismo, como Anita Malfatti, Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade, e recebeu a medalha de ouro na Exposição Internacional de Artes e Técnicas de Paris, em 1937. Uma dos artistas que tiveram M’Boy como mestre foi Tadakyio Sakai, nipo-brasileira, escultora, pintora e gravadora que chegou à Embu na década de 30. Foi ela que, nos anos 60, ajudou a fundar o Salão de Artes Plásticas em 1964. Durante o governo militar, a cidade também se tornou refúgio do movimento hippie, que encontrou no município um espaço para desenvolver o artesanato e fugir da perseguição. Da Alesp












