*Matéria atualizada às 10h45 de 31/7 com a posição da Prefeitura de Cotia.
Um oleoduto em meio à tempestade perfeita: Cotia e a encruzilhada do desenvolvimento
O Jornal Cotia Agora, ao tomar conhecimento da proposta de um projeto federal para a implantação de um oleoduto que passa pelo município e cidades vizinhas como Barueri, Embu das Artes, Itapecerica da Serra, entre outras, rumo à Santos, buscou a análise do arquiteto e urbanista Fernando Confiança, morador de Cotia que possui especialização em gestão da mobilidade urbana e planejamento urbano.
A seguir, apresentamos as considerações de Confiança sobre os possíveis impactos e o contexto em que esse projeto chega à nossa cidade:
A cidade de Cotia, se vê agora diante de mais um grande desafio: a proposta de um oleoduto federal, que chega em um momento de muitas incertezas e expectativas para seus moradores e empresas. Imagine a cena: um projeto vindo “de cima”, sem muita conversa com quem vive o dia a dia da cidade, adicionando uma nova camada a um cenário já complicado.
Oleoduto: Um novo capítulo com muitas perguntas
Nesse cenário complexo, surge o oleoduto. Uma proposta do Governo Federal, que tem o objetivo de transportar produtos, mas que, para quem vive aqui, levanta muitas questões:
-Segurança em primeiro lugar: Um oleoduto perto de nossas casas é seguro? Quais os riscos de acidentes, como vazamentos ou explosões? Nossas famílias e nosso meio ambiente estão protegidos?
-Nosso chão, nossas águas: O traçado vai passar por onde? Por cima de rios, córregos, áreas de mananciais que abastecem a região? Como fica a nossa água?
-Casa e terra: Se o oleoduto passar pela minha propriedade, o que acontece? Serei desapropriado? Terei restrições de uso da minha terra?
-Obras e trânsito: Como as obras vão impactar o trânsito da já caótica Raposo Tavares e as ruas dos bairros? Teremos mais engarrafamentos e desvios?
-Benefícios para Cotia: Esse projeto traz empregos para nossa gente? A cidade vai receber algum benefício financeiro ou ambiental em troca dos impactos que ele pode causar?
O que pensam moradores, empresas e investidores?
Diante de tudo isso, é natural que a população de Cotia esteja dividida ou ainda tentando entender. Moradores podem se preocupar com a segurança e o valor de suas casas. Empresários e investidores imobiliários podem ver oportunidades ou, ao contrário, incertezas para seus negócios em uma cidade com regras suspensas e um novo projeto de grande porte, certamente todos nós procuramos segurança jurídica e visão de futuro melhor.
Para isto, serão fundamentais a transparência e um posicionamento da gestão pública que nos leve ao desenvolvimento sustentável do município.
Nosso objetivo, como imprensa, é trazer à tona essas discussões, abrir espaço para todas as vozes e permitir que cada cidadão, do mais simples ao acadêmico, forme sua própria opinião. É fundamental que esse projeto seja amplamente debatido, para que Cotia possa construir seu futuro com clareza e com a participação de todos que a fazem acontecer.
Leis suspensas e um futuro incerto
Para entender essa “tempestade perfeita”, precisamos lembrar que Cotia está com suas leis de desenvolvimento urbano em xeque. O Plano Diretor e o Uso e Ocupação do Solo – que são como as regras do jogo para como a cidade pode crescer – estão suspensos pela Justiça. Isso significa que, hoje, para saber o que pode e o que não pode ser feito, o município precisa usar regras antigas, de 2008. Essa situação cria uma grande insegurança para quem quer construir, investir ou até mesmo saber como sua rua será no futuro.
Raposo Tavares: Um sonho antigo e muita dor de cabeça
Outro ponto crucial é a Raposo Tavares. Quem mora ou trabalha em Cotia sabe bem o que é enfrentar o trânsito diário para chegar à Capital. Há anos, se fala em melhorias e ampliação da rodovia, uma esperança para aliviar o sufoco da mobilidade. O Governo do Estado tem um projeto para isso, mas enquanto as obras não avançam, os engarrafamentos continuam sendo parte da rotina, impactando diretamente a qualidade de vida e o tempo que as pessoas levam para ir e vir.
Orçamento e planejamento: Onde a cidade vai investir?
E tem mais: justamente agora, entre o final de julho e início de agosto, a Prefeitura está montando o orçamento de 2026 e o Plano de Longo Prazo da cidade (PPA). É neste momento que se decide onde Cotia vai investir seu dinheiro nos próximos anos – em saúde, educação, transporte, segurança. A chegada de um projeto de oleoduto do Governo Federal, sem prévia consulta, mexe com todas essas discussões e pode alterar o destino dos recursos das prioridades locais.
*Entramos em contato com a Prefeitura de Cotia na tarde de sexta-feira (25), pedindo posicionamento. A Prefeitura respondeu na manhã de 31/7. Confira:
A Secretaria de Habitação de Cotia informa que no que se refere à implantação de oleoduto no Município, até a presente data, não houve qualquer requerimento formal relacionado à apresentação de documentos, análises ou pedidos de autorização.
É de conhecimento desta Pasta que, no Plano Estratégico 2050 e no Plano de Negócios 2025–2029 da Petrobras, está prevista a execução do Oleoduto Barueri–Caminho de Pilões, projeto que visa substituir e realocar o atual Oleoduto Barueri–Utinga, com o objetivo de ampliar a capacidade e adequar a logística de armazenamento e escoamento de derivados. Contudo, conforme informações públicas disponíveis, esse projeto possui previsão de entrada em operação apenas após o ano de 2030.
O que se tem, até o momento, é o conhecimento de um esboço de traçado preliminar, estando o projeto ainda na fase de análise de viabilidade técnica e econômica. Quando houver formalização da proposta e avanços concretos, a Prefeitura envidará todos os esforços necessários para que os estudos e eventuais implantações sejam compatíveis com os interesses e o planejamento urbano do Município.
Até o momento, houve apenas um diálogo inicial sobre o projeto, com o intuito de antecipar informações que possam futuramente subsidiar as análises técnicas e institucionais.
Este e outros temas relevantes, como a Linha Marrom do Metrô, a Concessão da Rodovia Raposo Tavares, entre outros projetos de impacto regional que extrapolam os limites territoriais e de competência direta do Município, vêm sendo acompanhados com atenção por esta Secretaria e pela atual Administração Municipal, visando sua adequada integração ao planejamento de desenvolvimento da cidade.
A Secretaria aguarda que os estudos técnicos e econômicos relacionados ao oleoduto comprovem sua viabilidade e que, caso o traçado seja definido com passagem pelo Município e validado em consonância com os critérios municipais, o projeto possa trazer benefícios efetivos para Cotia, como geração de trabalho, renda, investimentos e melhorias estruturais.







