Por Fernando Confiança, Arquiteto e Urbanista
Nossa cidade, Cotia, está em um ponto de mudança. Um projeto rodoviário, que promete melhorias, pode, na verdade, estrangular nossa qualidade de vida e o futuro do nosso desenvolvimento urbano. Refiro-me à Concessão Nova Raposo, um plano que, se não for urgentemente revisto, transformará o coração de Cotia em um interminável corredor de caminhões.
No último dia 18 de julho, tive a oportunidade de participar de uma importante palestra na AETEC- Associação dos Arquitetos, Engenheiros e Técnicos de Cotia – ministrada pela engenheira civil Raquel França Carneiro, integrante do conselho diretor da ARTESP. Na ocasião, obtivemos uma informação crucial: o polêmico trecho de ligação entre a Rodovia Raposo Tavares e a Régis Bittencourt foi incorporado ao projeto de melhorias da Raposo (do Km 34 até a capital) porque a Prefeitura de Pirapora do Bom Jesus recusou a duplicação da Estrada dos Romeiros. A surpresa e o perigo vêm a seguir: os prefeitos de Cotia e Itapevi, da gestão anterior, indicaram o nosso trajeto urbano para o redirecionamento dos recursos disponíveis.
Isso significa que, por uma decisão que nos afeta diretamente, a solução para um problema rodoviário que poderia ser resolvido em outras vias, ou com aprimoramento do projeto, está sendo jogada dentro da nossa cidade.
O que significa essa decisão para Cotia?
Imagine um fluxo ininterrupto de caminhões, 24 horas por dia, 7 dias por semana, passando pelas nossas ruas e avenidas. Não é um cenário para ficção; é a previsão para nossa cidade, uma Cotia que já luta com seus desafios urbanos. As consequências são assustadoras:
• Sufocamento da Qualidade de Vida: Nossas casas serão invadidas por um barulho constante e uma nuvem de poluição vinda dos escapamentos. Isso não é apenas desconforto; é um risco direto à nossa saúde, provocando estresse, problemas respiratórios e cardiovasculares. Nossas crianças, idosos e todos nós pagaremos um preço alto em bem-estar.
• Colapso Total da Mobilidade: Nossas vias urbanas, que mal dão conta do tráfego atual, não foram feitas para esse volume e peso de caminhões. Teremos congestionamentos eternos, prejudicando não só quem anda de carro, mas também o transporte público, ciclistas e pedestres. Sabe aquele trajeto que já é complicado do centro para a Granja Viana, sem uma via interna independente? Vai piorar muito, pois a Raposo Tavares, que não é uma avenida, será ainda mais sobrecarregada, e as ruas da cidade virarão um inferno.
• Perigo nas Ladeiras: Nossa Cotia é cheia de ladeiras. Caminhões pesados em declives e aclives aumentam drasticamente o risco de acidentes graves, como falhas de freio ou perda de controle. Nossas ruas não possuem a segurança e a estrutura de uma rodovia para lidar com isso.
• Ameaça à Nossa Mata Atlântica: O projeto passará por uma importante área de Mata Atlântica. Mesmo com a promessa de túneis, a nova acessibilidade funciona como um convite perigoso para ocupações irregulares e desmatamento. Não podemos abrir mão desse patrimônio ambiental, essencial para nosso clima e nossa água.
Onde está o nosso Planejamento Urbano?
É ainda mais grave saber que Cotia permanece sem a revisão de seu Plano Diretor e da Lei de Uso e Ocupação do Solo. Nosso Plano de Mobilidade Urbana carece de dados atualizados. Como podemos tomar decisões de tal magnitude sem uma bússola que aponte o melhor caminho para o crescimento da cidade? A falta de um fluxo interno independente entre o centro e a Granja Viana é um sintoma claro dessa lacuna no planejamento.
A Janela de Oportunidade e o Poder Municipal na Mobilidade
A boa notícia, e um ponto crucial para nossa mobilização, é que a própria Raquel França Carneiro da ARTESP informou que as obras somente serão iniciadas após as aprovações dos Estudos e Relatórios de Impactos (Vizinhança, Meio Ambiente e Socioeconômicos) e a realização de audiências públicas sobre o projeto executivo.
Isso significa que temos uma janela de oportunidade para agir e influenciar o projeto antes que ele se torne uma realidade irreversível. Nossas vozes, baseadas em argumentos técnicos e na defesa da qualidade de vida, são fundamentais nesse processo.
Outra informação importante é que, embora a concessionária construa as vias marginais, a gestão dessas vias será dos municípios por onde passarem. Isso nos dá um poder significativo! Se a prefeitura de Cotia decidir, por exemplo, que uma das faixas será exclusiva para ônibus nos horários de pico (manhã e final do dia), o tempo de deslocamento do transporte coletivo entre Cotia e São Paulo poderá ser reduzido consideravelmente. Além disso, a ARTESP confirmou que serão construídos passeios de pedestres e ciclovias nas laterais dessas vias marginais, o que é um avanço para a mobilidade ativa.
O que podemos e devemos fazer?
Perguntei à Raquel França Carneiro da ARTESP como poderíamos contestar ou solicitar mudanças no traçado. A orientação é clara e é o primeiro passo da nossa batalha:
- Protocolar nosso pedido na concessionária EcoRodovias: O contato é [email protected].
- Aguardar 30 dias por uma resposta.
- Caso não haja retorno, encaminhar a ocorrência para a ARTESP: O e-mail é [email protected].
Mas não paramos por aqui. Este ensaio já foi protocolado na Associação de Engenheiros e Arquitetos de Cotia, na OAB Subseção de Cotia, e no Conselho Municipal do Meio Ambiente. Eles têm o poder de emitir pareceres técnicos, recomendar ações ao Poder Executivo e exigir transparência.
Cotia não pode ser a rota de escape para um problema de rodovia. Nossa cidade merece respeito, planejamento e um futuro com qualidade de vida. É hora de nos unirmos, cobrarmos e fazermos nossa voz ser ouvida. O futuro de Cotia depende de cada um de nós!
Foto: Fernando Confiança, Raquel Carneiro, Silvio Furquim (vice presidente da Aetec) e o representante da Mútua. Nas mãos da representante da ARTESP está o Ensaio Crítico que pode ser visto abaixo.












