ANTÔNIO DOS SANTOS CAMARGO: UM ESCRITOR DESCONHECIDO Conto – uma pequena reflexão sobre o poder do orgulho na vida de uma pessoa O HOMEM QUE JOGAVA DOMINÓ No Instituto Médico Legal, o médico hesitava para concluir o laudo da morte de um empresário, ocorrido em sua própria empresa. Não havia dúvida sobre a causa da morte, mas um detalhe o intrigava e ele resolveu conversar com as pessoas que presenciaram a morte do empresário. Chamou as três pessoas em sua sala e iniciou a investigação. -Vocês eram amigos do falecido? – perguntou o médico. -Não, – disse um deles – ele era nosso patrão. -O que vocês estavam fazendo no momento do ataque? -Bom, – disse outro – nós estávamos jogando dominó como sempre fazíamos na hora do almoço. -Vocês gostavam de jogar com ele? -Não, – disse o primeiro – nós jogávamos porque tínhamos medo de sofrer alguma represália caso negássemos, ele era vingativo. -Ele era bom jogador? -Não, – disse o terceiro – mas era viciado em jogo de dominó e, quando perdia, sempre punha a culpa no parceiro dele, de forma humilhante. -Muito bem, contem-me tudo o que aconteceu até o momento do ataque. -Bom, – disse o primeiro, mais falador – nós estávamos jogando dominó na hora almoço, como fazíamos todos os dias de trabalho, e eu tinha sido sorteado parceiro dele. O jogo era sempre “melhor de quatro partidas”, o doutor deve saber como é. Nós já havíamos perdido três partidas de “lambreta”, o doutor também deve saber o que é, e ele estava muito revoltado porque eu tinha “morrido” com o dobre de sena na mão, o famoso “carroção”. O senhor sabe, doutor, para quem joga dominó não há nada mais humilhante do que morrer com o “carroção”. Então, quando o meu amigo aqui disse bati, ele emitiu um grito esquisito, levou uma mão à boca e outra ao peito e caiu. Nós o socorremos, mas ele já estava morto. -Eu conheço bem o jogo de dominó – disse o médico – e, aliás, eu os chamei aqui por causa desta “pedra” que estava na garganta dele. – mostrou uma peça do jogo de dominó – Vocês conhecem esta pedra? -Olhem! – gritou o terceiro. É o carroção que estava faltando! O médico, então, dispensou os entrevistados, foi para sua sala e concluiu o laudo. Causa mortis: Infarto agudo do miocárdio causado por orgulho ferido.












