Eu sempre desconfiei da tese de que a meninada de 11 a 17 anos extrai das redes sociais todos os nutrientes necessários para a produção de sua dose diária de angústia digital. O que foi se tornando claro com o tempo é que parte da azáfama é consequência do fato de que mais de 40% desses jovens consomem ou “são expostos” à pornografia —um gênero em que um homem dá um tapa na cara de uma mulher e ela invariavelmente diz: “Quero mais”.
O menino pensa na agressividade e potência necessárias para exercer esse papel e conclui: “estou perdido”. A menina pensa na tolerância para se submeter ao que mais lhe parece um estupro e conclui algo pior. Assim, toda uma educação sexual às avessas é colocada em curso.
O sexo como representação do poder de subjugar é a derradeira fonte da assombração digital, muito além da última dancinha do TikTok. Sua base é parcialmente ideológica: ao insuflar animosidades, o pornô trabalha a favor do neoconservadorismo, o qual se alimenta de dicotomias bem delimitadas e de representações estereotípicas, como a da mulher submissa.
Machosfera, incels, a série “Adolescência”, tudo isso tem como pano de fundo o fantasma da pornografia, que adquire papel formativo sob a égide da mais extrema caretice.
Porém, é preciso não superestimar o papel moralizante das perversões nas dinâmicas de consumo midiático —nossos predecessores já mostraram como errar fazendo isso. Mais importante é o fato de que relações afetuosas, assim como o erotismo, quase não dão cliques.
O custo energético do clique faz com que a audiência só se mobilize em relação àquilo que gera reações viscerais, para o bem e para o mal, e esses conteúdos são privilegiados pelos algoritmos, os quais são treinados para maximizar o engajamento, pois é ele quem agrada os anunciantes.
O resultado é que as encenações mais extremas e mesmo problemáticas (por exemplo, “madrasta” é um dos trending topics do Pornhub) se tornam as mais reproduzidas, dessensibilizando as pessoas por um processo análogo ao que levou os discursos de ódio ao topo do ranking do Instagram, deixando para traz as fotos de gatos. Essa é uma das razões para o sexo real estar declinando.
A base utilitária do pornô é composta de objetivos de um único fundo, o canadense Ethical Capital Partners, empresa monopolista que alega “produzir resultados com base em valores éticos” e que é dona de todos os grandes canais de pornô do mundo, exceto um.
Parece inusual, mas é o que também se observa no mercado dos encontros casuais, em que o Match Group possui o Tinder e todas as outras plataformas relevantes. São os seus interesses, mais do que as aspirações individuais, que explicam a lógica dos relacionamentos atuais.
A indústria da pornografia se profissionalizou com as paredes do fundo das videolocadoras, explodiu com a sua extinção e arquitetou com sucesso uma epidemia, conforme a vida passou a depender da bateria do celular, criando as condições para a algoritmização cerebral.
Ao contrário das redes sociais, o pornô se beneficia diretamente da melhora continuada das interfaces e da manutenção do isolamento. Seu futuro promete mais, sobretudo a partir do momento em que óculos de realidade aumentada permitirem despir pessoas anônimas pelas ruas e namoradas de silicone com IA tornarem-se mães de exclusivas bebês reborn.
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