Por Fernando Confiança (Arquiteto e Urbanista, Especialista em Gestão da Mobilidade Urbana) Na última quinta-feira, enquanto milhares de paulistanos perdiam preciosas horas no caótico trânsito da Rodovia Raposo Tavares, a causa do colapso não estava na pista principal, mas sim a alguns metros dali: o manejo de uma imponente Araucária na Avenida São Camilo, em Cotia. O vídeo e as fotos falam por si: uma árvore de grande porte sendo derrubada de forma que resultou na queda da sua copa sobre a via, destruindo a rede de energia elétrica e bloqueando completamente o acesso. O resultado? Um efeito dominó que travou a Raposo Tavares até por volta das 19h.Este incidente não é apenas uma notícia local. É uma radiografia da negligência no nosso planejamento urbano e uma prova de que a natureza, quando mal gerida, tem o poder de paralisar a cidade. O Custo da Negligência: Falhas Processuais Comprovadas Como especialista em Gestão da Mobilidade Urbana, vejo neste caso uma falha tripla da administração pública.A responsabilidade pela supressão da Araucária, espécie protegida por lei, foi formalmente assumida pelo Município de Cotia, apto ao licenciamento de alto impacto (LCP 140/2011 e DN CONSEMA 01/2024). No entanto, o problema não foi a ausência de competência, mas o descumprimento das regras de segurança e transparência impostas pelo próprio poder público: • Quebra de Segurança (Comprovada por Documento): O documento de Autorização de Supressão nº 184/2025 exigia, em suas OBSERVAÇÕES, que o responsável pela obra “contatasse a concessionária de energia elétrica… para providências relativas ao corte”. O que se viu na Avenida São Camilo — a rede elétrica destruída e o caos na mobilidade — é a prova cabal de que esta regra básica de segurança foi ignorada na execução. • Quebra de Transparência: A mesma Autorização exigia a colocação de “placa em local visível constando número de processo, número da autorização”. A ausência dessa placa quebra o princípio da publicidade, impedindo a fiscalização social de um ato classificado como de “alto impacto”. • Falha na Mobilidade: O descaso com o manejo de uma única árvore resultou em um prejuízo incalculável de tempo, combustível e produtividade para milhares de cidadãos que dependem da Raposo Tavares. O custo de tempo de cada cidadão é o custo da falta de planejamento. O Grito da Natureza e o Exemplo de CarapicuíbaA natureza provou ser um ator poderoso no nosso sistema urbano, não um mero elemento decorativo. O manejo inadequado dessa Araucária em Cotia é apenas a ponta do iceberg de um problema regional. Não por acaso, acompanhamos o recente episódio na vizinha Carapicuíba, onde o Ministério Público precisou intervir para suspender o desmatamento para a implantação de um loteamento na região da Fazendinha. São dois lados da mesma moeda: a falha de transparência e o manejo inseguro em Cotia e o desmatamento questionável em Carapicuíba demonstram que o patrimônio verde não tem sido devidamente valorizado e planejado em nossa região. A Urgência da ConexãoA lição mais profunda que tiramos da quinta-feira é que a questão ambiental nunca está separada da economia e da sociedade. O Planejamento Urbano deve, obrigatoriamente, conectar o Plano Ambiental ao Plano de Mobilidade Urbana. Sem essa sinergia, a cidade jamais conseguirá ampliar sua produtividade. Pior: sem esse planejamento integrado, o município se endivida. Endivida-se na piora da qualidade da saúde, na perda de bem-estar, nos desafios da segurança pública e na redução da arrecadação de impostos. Em última análise, a pobreza é muito pior para o meio ambiente. A negligência ambiental e de mobilidade é a receita certa para cidades caras, improdutivas e socialmente injustas. Como urbanista, afirmo que o desafio de planejar nossas cidades exige o respeito à vida das pessoas e ao meio ambiente como peças centrais. É hora de integrar o manejo ambiental ao planejamento de mobilidade, garantindo que nossas cidades cresçam com segurança, inteligência e respeito ao patrimônio natural.












